Entrevista do Dr. Álvaro Carvalho ao CM, aquando do lançamento do livro "Nas margens da Medicina"

Sónia Trigueirão - Jornalista CM

CM – Vai lançar mais um livro com o título “Nas Margens da Medicina”. Porquê?

Álvaro Carvalho – Comecei por escrever uma sucessão de textos que, de forma directa ou indirecta, se relacionam com o exercício profissional. No essencial, acaba por ser uma crónica do meu percurso pelos hospitais e pela Medicina, em que às recordações de algumas situações clínicas e do trabalho em equipa, se juntam reflexões sobre o exercício da prática médica. Pelo meio aparecem, com naturalidade, os convívios e umas brincadeiras, com mais ou menos graça. 

CM – O que quer dizer ao leitor?

Dr. AC - Tento inserir o médico na sociedade em que vive, pois ele não é diferente das outras pessoas. Tem familiares, amigos, convive, tem momentos de alegria e de tristeza. É certo que a bata branca, funcionando por vezes como um muro, o afasta  dos doentes e seus familiares, de quem deve estar próximo para melhorar a qualidade da Medicina.

Esta  forma humanizada de a conceber e exercer também contribui para racionalizar os custos, pois permite uma prescrição mais criteriosa de exames auxiliares de diagnóstico e de medicamentos.

Nas minhas reflexões, deixo implícito o papel que o ensino, as carreiras médicas, o trabalho em equipa e a hierarquia clara tiveram, para construir um Serviço Nacional de Saúde com qualidade.

CM - Como vê o estado actual do SNS?

Dr. AC - O SNS teve um trajecto de sucesso que se deve muito à qualidade dos seus profissionais, não só na vertente assistencial, como também  na forma como preparavam os mais jovens. As carreiras médicas eram exigentes e selectivas.O declínio começou, a meu ver, com o facilitismo que passou a imperar  nos concursos. Isto abriu a porta a outras coisas e a outros protagonistas.

CM – Como?

Dr. AC – Foram aparecendo, cada vez mais, outros profissionais a ocupar espaços que eram do médico, sem que a organização melhorasse. Surgiram demasiadas estruturas de comando e de  coordenação.  A escolha de gestores nem sempre é a melhor e alguns deles desconhecem a cultura das instituições que dirigem. A Saúde não pode ser gerida ao ritmo de ciclos políticos.   Os responsáveis devem ter em mente que em qualquer organização, e muito mais em unidades de saúde, o mais importante  é gerir pessoas.

 “Devia haver um contrato colectivo de trabalho “

CM – O declínio do SNS contribui também para o facto de muitos médicos preferirem trabalhar para o privado?

Dr. AC - Sim. Importantes quadros do  SNS começaram a ficar desiludidos com o rumo dos acontecimentos.

CM – Mas há uma falta de médicos generalizada?

Dr. AC - Há falta de médicos, para além de estarem mal distribuídos pelo País e por especialidades. Mais grave ainda é que começam a faltar os clínicos mais experientes que no passado asseguravam a boa formação dos mais novos.  E  como os médicos estão desiludidos com o caminho que o SNS está a seguir reformam-se, os que podem, ou encontram outros locais de trabalho. A manter-se este estado de coisas a tendência será nesse sentido.

CM - Como se poderia cativar os médicos?

Dr. AC - Com melhores condições de trabalho. Claro que os aspectos remuneratórios não serão secundários, tornando-se necessário que haja um equilíbrio nesta matéria. Devia haver um contrato colectivo de trabalho que criasse efectiva igualdade salarial em todas as instituições públicas de saúde.

CM – O que acha das medidas tomadas pelo Governo para manter no activo os médicos que se iam reformar?

Dr. AC - Em nada travou esta sangria, além de que a rigidez da legislação e os condicionalismos impostos ao regresso, mesmo que a tempo parcial, dos aposentados vieram agravar o problema. “Temos de racionalizar os custos”

CM – Na sua opinião a necessidade  de reduzir custos, nomeadamente nos hospitais, pode prejudicar os doentes?

Dr. AC – Racionalizar os custos não significa tratar pior os doentes. Aliás, eu acho que a prescrição exagerada de exames auxiliares de diagnóstico e de medicamentos é um indíce de má qualidade da Medicina. Portanto, neste campo há uma margem de poupança muito significativa. Mas isso tem de ser feito criteriosamente e com bom senso, para não se correr o risco de prejudicar o doente.

CM - Pedem-se exames em excesso?

Dr. AC - Sem dúvida que sim. É frequente aparecerem-nos doentes com sacos cheios de medicamentos e de exames., muitos deles escusados. Alguns até se queixam de terem passado por especialistas e máquinas, mas que sentem a  falta um médico assistente, com quem possam tratar dos seus problemas. É um grande defensor de equipas pluridisciplinares. Ajudam de alguma forma a reduzir custos? Não tenho dúvidas disso. O trabalho em equipa, com a troca de ideias e de experiências, contribui para diagnósticos mais rápidos e mais precisos, levando a uma economia de recursos técnicos. Correio da Manhã – Diz que se o médico tiver tempo para observar o doente prescreve menos exames. Como assim? Uma história clínica bem elaborada e uma atenta observação do doente permite fazer muitos diagnósticos, com grande economia de meios. Claro que em doenças mais complicadas os exames são necessários e actualmente dispomos de técnicas importantes, que nos permitem diagnósticos claros. Contudo, elas têm que ser conjugadas com o raciocínio clínico e não serem pedidas de forma indiscriminada, não só pelos seus custos, como também porque algumas são invasivas e não isentas de riscos. Para além disso, temos que ter em conta que não são infalíveis... Onde se pode poupar mais? Nas compras, em geral. Sobretudo nos hospitais que têm consumos elevados e uma gama variada de sectores de negócio. Ora, os gestores têm que ter um grande empenhamento neste campo e travar uma luta sem tréguas a alguma economia subterrânea que por lá possa existir. “Há uma economia subterrânea no SNS “ Não tenho dúvidas que existe.

CM – Pode especificar?

Dr. AC É claro que esta convicção não é gratuita e assenta em dados que a minha experiência de gestor me permitiu recolher. No SNS, sobretudo nos grandes hospitais, há ramos de negócios variados, que envolvem muito dinheiro e que despertam apetites em vários actores que aí se movimentam.

CM - Como melhorar o Serviço Nacional de Saúde?

Para haver melhorias significativas no SNS tem que se inverter o rumo dos acontecimentos e fixar aí os bons profissionais. Depois, têm que ser motivados e envolvidos na tomada de decisões e na resolução dos problemas. Assim tudo será mais fácil.

CM - No seu livro fala também do hospital Garcia de Orta onde trabalhou durante muitos anos. Guarda rancor pela forma como saiu?

-  Neste Hospital tive cargos de gestão de topo durante 14 anos. Vivi  naquela casa os meus melhores anos de profissão e senti o seu crescimento como o de um filho. Depois disto, apenas achava que tinha direito a uma saída digna, o que não aconteceu. Mas este é um capítulo encerrado. Por isso, e porque tenho muito respeito pelos seus profissionais e não menos pelos doentes que ali se tratam, não comento a situação actual. Julgamentos espero que a historia os faça.

CM - Que episódios destaca no seu livro?

Dr. AC - Os episódios que envolvem os mestres que moldaram a minha formação técnica e humana. A colaboração e o convívio nas várias equipas em que estive inserido.

As situações clínicas complexas que foram resolvidas com sucesso, sem esquecer outras que correram menos bem, mas que permitiram um aprofundar de conhecimentos e o adquirir de experiência.

Nas Margens da Medicina “ Sem pretender fazer uma anotação exaustiva do meu percurso de vida pessoal e profissional, é com bastante deleite que vou escrevendo uma notas soltas sobre alguns acontecimentos vividos, tendo por fio condutor um qualquer tipo de vínculo à prática médica. Estes apontamentos são súmulas de vivências clínicas, memorizadas porque se revestiram de algum dramatismo” “A actualização, em Medicina, é uma necessidade imperiosa, que todos sentem, sabendo-se também que não basta ao médico ter vastos conhecimentos técnicos, pois ele deve ser, ainda, um veiculo de humanismo e de cultura”.

“Fazer reflexões e emitir opiniões sobre factos é um dever de cidadania. Sempre o fiz sem receio, mesmo que me expusesse a  criticas ou retaliações de qualquer espécie”.

“São muitas as especialidades que estão obrigadas a assegurar, de forma regular e nas 24 horas de todos os dias da semana, as escalas de urgência, o que implica, para além do árduo e melindroso trabalho, uma vida familiar irregular, com mais ausências do que presenças” “Nestes serviço, tornados, assim mais afectivos, são cultivados determinados hábitos e rituais, logo desde o internato geral, como o da despedida ser feita com um jantar aberto à participação de todos com a oferta de um bolo para acompanhar o café do último dia pretendendo-se com isto deixar ali uma marca indelével”.

“Nunca me esquecerei do desabafo do director, o Dr. Pena de Carvalho (...): “Vou daqui para a Associação dos Empregados do Comércio, para fazer umas consultas e, quando almoço cá, tenho dificuldade em medir a tensão arterial aos doentes”.