Ecos da Capital
Volta à escrita Álvaro de Carvalho, desta vez em jeito autobiográfico, onde diz mais da sua carreira e do que deu à Medicina, em especial ao Serviço Nacional da Saúde, do que de si próprio, esbatidas as facetas de o menino da aldeia fronteiriça, o estudante liceal, o estudante-trabalhador, o médico de todos a troco de nada, o marido e pai que é, enfim, do homem inteiriço a corpo inteiro, bem vincadas em obras anteriores.
“Médico _ Radiografia de Corpo Inteiro” começa por ser a radiografia do SNS, suas virtudes e limitações, que devia merecer a atenção dos políticos que nos governam ou venham a governar, dos médicos e enfermeiros que ali prestam serviço e dos interessados na saúde pública. Mais do que os defeitos do sistema, o pior dos serviços de saúde pública está no enxamear dos interesses privados que nele subsistem, no compadrio que nele reina, e no desleixo administrativo que nele impera, males acentuados pela continuada, e por vezes frequente, substituição de ministros e mudança de orientação política e administrativa.
Radiografia feita através da experiência de um médico para quem o doente é e foi o elemento primordial no exercício da Medicina, e a gestão ou administração da coisa pública não se compadece com facilitismos.
Médico que em todas as emergências, clínicas ou administrativas, não se acomodou aos lugares, procurando melhorar o existente, inovar o necessário com conta, peso e medida, sem atender a outros critérios que não fossem os do mérito e da eficácia.
Álvaro de Carvalho foi médico, é médico e continuará a ser médico. O médico que para além do diagnóstico certeiro tem a palavra atenciosa a amenizar a ansiedade do doente.
Que assim é, prova-o a actividade a que se dedicou, depois de retirado de funções públicas, dedicando-se a criar uma fundação médica que colmata a deficiência de medicina pública nas Beiras interiores, designadamente no sector da oftalmologia.
O livro é complexo, embora a escrita do autor seja límpida e acessível. Refiro-me a toda a parte científica e técnica da Medicina e sua organização, facilmente apreensível para médicos, mas de difícil compreensão para leigos.
E é com uma opinião de leigo, que olha a Medicina do exterior e pelos resultados, que penso ser curial a obra de Álvaro de Carvalho passar a ser cardápio obrigatório para quem serve no SNS. Agora que a ciência e a tecnologia dominam, é bom lembrar que na área da Saúde é o Humano que deve continuar a predominar.
Escrito pela ortografia anterior ao AO
José Marques Vidal
